“Assalto terrorista em Quissanga e Macomia” e o espelho da estratégia de saqueamento para o auto-financiamento do E.I. em Moçambique

Em março do presente ano, os terroristas que desde outubro de 2017 vem atacando aldeias e vilas da província de Cabo Delgado, Nampula e Niassa, realizaram por uma semana, uma incursão no distrito de Quissanga, na província de Cabo Delgado, onde o objectivo não era queimar casas ou matar directamente os civis que ali residem, mas sim, saquear tudo e todos que possuíam algum bem.

O cenário de falta de protecção efectiva de militares e polícias permitiu que os terroristas durante aquele período assaltassem tudo que era residência, armazém, hospitais, serviços financeiros ou local de lazer. Por uma semana, os habitantes da vila de Quissanga e arredores virão com os seus produtos alimentares e bens materiais a serem transportados em tractores agrícolas, viaturas particulares e do governo para locais incertos pelos terroristas. A vila estava desprotegida. Os únicos agentes que ficavam na vila morreram cercados pelo bando. E na sexta-feira (10.05), ou simplesmente, dois meses depois, o grupo escalou a vila-sede de Macomia, um importante entreposto comercial e que já mostrava sinais de vitalidade económica e social.

Em Macomia, o bando estava em maior número, tendo uma parte instalando-se nas proximidades das posições militares, onde disparos intensos se faziam sentir. Outros fecharam as vias de entrada e de saída do distrito. Enquanto isso, a maior parte do grupo apoderava-se de viaturas da Organizações Não-Governamentais (ONG), governamentais e de particulares para a recolha dos produtos e bens saqueados. A resistência do Exército custou mais de 18 vidas de militares que abnegadamente lutaram por mais de 13 horas em defesa da vila-sede de Macomia e mesmo sem recompor ainda as energias, estabeleceram o circuito de protecção quando o grupo pretendia voltar a assaltar a vila no dia seguinte, 11 de maio passado.

A ordem militar, segundo a qual todas as residências e pessoas deveriam ser inquiridas antes de voltar à vila, pode ter sido eficaz, apesar da mesma ter sido criticada por alguns defensores dos direitos humanos. O facto é que enquanto a Tanzânia fortifica a defesa e o controlo da circulação pelas suas fronteiras e os ruandeses garantem a segurança em Mocímboa da Praia e Palma, e o Exército nacional trabalha nas restantes regiões, os terroristas viraram as atenções para os distritos que se recuperaram da onda de destruição e saqueamento dos últimos seis anos.

A escolha dos locais até aqui saqueados não é mero acaso. As populações de Quissanga e Macomia estavam a recompor-se. Trabalhando dia e noite para reorganizar as suas vidas, mas as últimas incursões do grupo podem ter afugentado vários nativos e estrangeiros que acreditavam que a paz havia retornado para aqueles locais.

Em Cabo Delgado, um dos negócios que mais cresceu é o de sucatas de viaturas que explodiu após o assalto à vila de Palma em março de 2021, onde investigadores independentes dizem que durante o ataque morreram mais de mil pessoas, entre nacionais e estrangeiros, razão pela qual, a TotalEnergies encontra-se a ser investigada na França por alegada negligência.

Em Cabo Delgado, quando os terroristas levam as viaturas de civis ou organizações que trabalham naquela região, a maior parte delas são incendiadas e as sucatas desaparecem misteriosamente. A questão é, quem lidera este negócio? Não haverá aqui pré-pagamentos antes ou durante as incursões terroristas para depois os envolvidos no negócio levarem as sucatas sem precisarem de muitas burocracias? Só o tempo dirá e as suspeitas ganharão formas.

No entanto, a narrativa presidencialista de que teremos que “aguentar com as metamorfoses do terrorismo parecem que estão a ganhar forma”, não é em vão que mesmo depois da última incursão terrorista em Macomia, muita gente preferiu regressar para as suas casas, assim que o grupo se retirou do distrito, contrariamente com o que acontece em outros locais, onde após um ataque ou disparos para o ar, a população deixa tudo para trás e procura por novos sítios para continuar com as vidas.

Contudo, um dado importante que se registou no último ataque à Macomia, foi a pronta confirmação das autoridades nacionais, desde o Presidente da República, Filipe Nyusi, o Ministério da Defesa Nacional, o Estado-Maior General das FADM e o Comando-Geral da PRM. Uma situação que anteriormente não se verificava e “diabolizava-se” o órgão de comunicação social que assim escreve-se. (Omardine Omar)

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