Reacção da Fátima Mimbire sobre o retorno as aulas presenciais

De Fátima Mimbire passa a citar:

“Porquê não me espanto com a decisão de reabertura do ano lectivo?

O Governo, através do PR declarou o reinício gradual das aulas. É claro que esse reinício é uma falácia ecológica nas escolas públicas deste país. Ora, ao longo dos anos o investimento no saneamento do meio foi fraco (o relatório do censo populacional realizado em 2017 é muito claro sobre isso) e não há condições para garantir a exigida higiene nas escolas públicas.

Nas escolas públicas raramente há água nas casas de banho, nem vou falar de álcool gel porque seria um insulto. Como vão lavar as mãos regularmente? Posso falar de máscaras? Acho melhor nem falar, porque nem o Governo tem um plano de distribuição das mesmas, sobretudo para as famílias pobres que não conseguem comprar máscaras.

E se formos a olhar para a necessidade de observância do distanciamento físico, é muita ingenuidade acreditar que será possível, uma vez que no mínimo as nossas escolas públicas têm 50 alunos por turma que já se apertam na sala de aulas. Como resolver isso? É possível resolver isso em semanas?

Na verdade esta covid19 veio dar um tapa na cara dos nossos dirigentes que se recusaram a investir como deve ser nos sectores prioritários: saúde, educação, água e saneamento. E hoje têm de dizer-nos: como vão garantir o distanciamento social dos alunos nas salas de aula? Espero que os nossos deputados – que tiveram de intetromper os trabalhos e até fazer uma sessão virtualmente para aprovar o EE, façam estas e outras perguntas ao Governo quando regressarem ao trabalho.

A decisão do governo, para além de precipitada e controversa, é mais uma vez de exclusão e, de certa forma uma resposta aos interesses de determinados grupos da sociedade. Apenas as escolas privadas estão em condições de garantir o distanciamento físico nas salas de aula (embora nem todas, porque algumas são autênticas escolas públicas sob gestão privada e propinas pagas mensalmente) dado o número de alunos por turma-chegam a ser menos de 25 alunos.

Sabendo a quem pertencem as escolas privadas, lembrando das peripécias que andamos a assistir envolvendo encarregados e escolas, fica tudo cristalino: a decisão não é sobre nós, mas sobre eles mesmos.

Já agora, acabaram as escalas na administração pública? A campanha “ficaemcasa” já terminou? Quando a AR volta ao trabalho presencial ou continuará virtual?

Finalmente, uma pergunta: continuamos a acreditar que é o investimento directo estrangeiro em mega projectos que vai resolver o nosso problema de desenvolvimento (falta dele na verdade) e retirar-nos da pobreza? Sério? Porque é que não somos ricos, já? Temos Mozal, Sasol, Vale, Jindal, ICVL, Kenmare, há mais e 10 anos, que fazem biliões usando nossos recursos, sem contar com as multinacionais no sector algodoeiro, nas florestas, na agro-indústria?

Se a Europa está a escolher quem entra lá, se a RSA está fechada até provavelmente próximo ano, nós deixaremos qualquer um entrar, independentemente da sua proveniência e situação nesse país? Esse tais investidores deverão cumprir os 14 dias de quarentena obrigatória ou nem por isso?”

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