Carta aberta para Matilde Conjo (Gala Vibratoques)

MATILDE CONJO

Quando o ridículo dá “espectáculo”

A CULTURA é compreendida em várias áreas do saber – Antropologia e Sociologia, sobretudo – como o conjunto de hábitos e costumes, incluindo a forma de pensar e o modo de ver o mundo de uma certa sociedade. Trata-se de um conceito já deveras discutido. Reconhecendo não ser algo homogéneo num mesmo grupo social, hoje fala-se cada vez mais do multiculturalismo e, com as migrações, de interculturalidade. A arte, por sua vez, busca nesse conjunto de elementos fundamentos para se construir. É neste contexto que pode ser entendida (a arte) como o reflexo de uma sociedade, pois não existe fora do seu contexto cultural. Nalguns casos – até porque é daí que brotam os génios – os artistas servem-se do seu ofício para incitar algum questionamento ao já estabelecido, o que é feito com fundamentos sólidos (nem sempre) claros. Mas tem de haver uma tese que argumente o desvio.

Entretanto, na semana passada, em função do que se pode observar nas conversas do quotidiano e nas redes sociais – onde memes (sátira em forma de imagem) desempenham o seu papel – chocamo-nos com a aparição da cantora de música popular Matilde Conjo, vestida de freira, com uma garrafa de cerveja em punho e cigarros a decorar os seus óculos. Para início de conversa isso é blasfémia.

– As freiras também têm vida – justificou ela. Claro! Isso é um facto e está plasmado no terceiro artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos, sem nenhuma discriminação, nos seguintes termos: “Todo ser humano tem direito à vida”.

De igual modo o artigo XIX aponta que “Todo ser humano tem direito à liberdade de expressão”. O que não temos lá plasmado – e o bom senso apela – é que esta liberdade seja usada para ofender a crença dos outros. Até porque “a nossa liberdade termina onde começa a dos outros”.

A suposta artista usou deste direito de forma abusiva (para não usar termos mais sinceros) e ofendeu a crença de milhões de moçambicanos (e não só), sem que nada a tenham feito ou, podemos também assim dizer, sem que nada a tenha acontecido. Até porque não há muito tempo Matilde Conjo mostrou que algo não vai bem com ela quando entrou no palco dentro de um caixão.

Aliás, este não foi o único episódio em que exibiu o absurdo nas suas atitudes. Noutra ocasião já tinha abandonado o palco para representar o patético no cimo de uma mesa.

As artes, como já referimos, são o retrato de uma sociedade e os seus produtores, por conseguinte, cultores desse reflexo. Daí que se exige uma consciência clara do que se está a fazer, sobretudo num contexto como o actual em que os media tornaram-se o Olimpo – sem critérios, ao que parece – e o que os artistas fazem é tomado como referência de um mar de gente.

Ao fazer-se a um evento de gala, como era suposto ser o Vibratoques da Vodacom, com vestes religiosas e uma garrafa de cerveja na mão, da qual ia consumindo alguns goles, num contexto em que se apela cada vez mais à moderação no consumo do álcool, que mensagem pretende emitir? O que é que há de bom em exibir e incentivar o consumo do álcool? Não estamos aqui com ares puritanos – apelamos sempre à moderação, claro.

O mesmo questiona-se em relação ao tabaco. Diariamente estudos provam que o consumo deste é nocivo à saúde, não só para os seus consumidores activos, como também para os passivos. Uma das patologias associadas ao cigarro é o cancro, que o país ainda enfrenta dificuldades no seu tratamento. O que é que está a tentar dizer com isso? O que é que está a dizer que nós (sociedade moçambicana) somos?

O que pretende dizer ao vestir-se de freira para essas atitudes, num país que convive de forma sã a sua laicidade e pluralidade religiosa?

É preciso estar atento que hoje a vítima foi a igreja católica, amanhã qual será? É para quê – olhando para fora – num mundo que vive tensões religiosas muito fortes. O que é que se pretende dizer com isso?

É certo que as regras convencionalmente estabelecidas por uma sociedade não são estáticas. Vão seguindo – as (muitas) vezes sob rastos – a dinâmica dos seus actores. E, conforme avançamos antes, a arte pode sim (e é) um veículo de questionamento social, é palco de rupturas, serve para chamar a sociedade a reflectir. Mas se a sua proposta não acrescenta no desenvolvimento do conjunto, muito menos a dignifica, qual é a necessidade de ser exposta?

Era suposto que, por se tratar de alguém que pretende ser uma artista, o que mais se evidenciasse fosse a sua arte. Mas não. São as suas aparições patéticas que não dão dignidade a ninguém que a colocam na ribalta.

Há no seu comportamento uma triste necessidade de fazer-se à media, através da polémica, de forma a cobrir o vazio de talento de que é vítima.

Mas, neste triste cenário de ofensa colectiva, a culpa vai também para a empresa de telefonia móvel Vodacom, organizadora do evento, que associou a sua imagem a barbaridades desta dimensão. Não destrinçou a mediocridade, o patético, o ofensivo e a incúria com o certo.

A empresa Vodacom permitiu que Matilde Conjo entrasse para a sua gala com aquelas vestes, exibindo, ambos, um ridículo espectáculo gratuito.

Oxalá os gestores desta telefonia tenham aprendido a lição e ganhem consciência da mediocridade que, às vezes, são “obrigados” a promover. Mesmo que amanhã seja para dizer que foram apanhados desprevenidos, como agora que tentam distanciar-se de Matilde Conjo, cuja actuação mais se comparou a uma infeliz e mal amanhada actriz de circo.

Culpa, igualmente, das televisões que, sem distinção, transmitem tudo que para lá vai, ignorando a avaliação dos conteúdos.

Reiteramos que a arte não existe fora da cultura. E tudo o que nos foi dado a ver não passa de um embuste, pois tenta fazer-se nos acreditar – e porque não consumir – que é arte o que faz. E como arte representa aquilo que somos enquanto sociedade, definitivamente, não nos revemos nela e no seu (infeliz) espectáculo gratuito.

 

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