“Processo Carlos Cardoso: uma verdadeira anedota” – diz Nini Satar

Carlos Cardoso
Carlos Cardoso

“Antes de ir ao cerne da questão, quero satisfazer algumas inquietações que alguns amigos e fãs daqui do Facebook me têm colocado. A pergunta recorrente que me têm feito é porquê escolheram a mim para condenar no processo Carlos Cardoso? Outros vão mais longe dizendo que se escolheram a mim é porque não há fumo sem fogo.

Pois bem, ai vai a minha resposta à estas inquietações. Eu, Nini Satar, nunca neguei para ninguém que em 1996 estive envolvido no processo BCM. Acontece, porém, que o processo BCM era muito complexo e porque ainda gozava de liberdade, logicamente tinha inimigos e foram estes invejosos que me arrastaram à lama sem que me desse conta.

A fraude ao BCM foi em 1996. Quatro anos depois morreu o jornalista Carlos Cardoso. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Até que tudo o que havia que se escrever sobre a fraude ao BCM já havia sido escrito em 1996. Em 1997, o processo BCM já havia sido entregue ao tribunal.

Tentaram inventar um motivo qualquer para nos envolver no assassinato do jornalista e, de certa forma, para não prender o verdadeiro mandante que era Nyimpine Chissano, filho do então Presidente da República, Joaquim Chissano. Nessa altura, Chissano ainda era Presidente da República, daí vocês podem tirar as vossas ilações.

Eu fui usado como Bode Expiatório e fui crucificado por um crime que não cometi. Sempre neguei o meu envolvimento no assassinato do jornalista Carlos Cardoso e continuarei a negar até ao último dia da minha vida. Ademais, havendo juízo final, tenho certeza que deste crime serei absolvido. Nunca fui um assassino. Respeito a vida de um ser humano e critico veementemente quem tira a vida ao seu semelhante. Para mim nada justifica tamanha brutalidade.

Anedota do processo Carlos Cardoso

Eu, Nini Satar, fui detido no dia 13 de Março de 2001 pela Polícia. No processo, ao que constatei, não havia nada que justificasse a minha detenção, ou seja, ninguém dos que haviam sido detidos em conexão com o assassinato de Carlos Cardoso havia citado o meu nome.

António Jorge Frangoulis, na altura director da PIC da cidade de Maputo, ouviu algumas fofocas numa casa de pastos e fez disso uma verdade ao ponto de me mandar prender.

Na altura, o processo devia ficar 34 dias nas mãos de Frangoulis, tempo considerado de prisão preventiva. Acontece, porém, que Joaquim Madeira, na altura Procurador-Geral da República, recebe pressão da nomenklatura política para que nomeasse um Procurador para cuidar do processo o mais urgente possível, porque o mesmo processo não podia permanecer nas mãos de Frangoulis.

O Código do Processo Penal reza que o processo pode ficar na PIC por 34 dias e podem chegar a 90 dias caso haja diligências. Isto não aconteceu. Como sempre digo, o processo Carlos Cardoso era especial , esquisito e oco.

Nomeada a Procuradora Ana Maria Gemo, esta foi buscar o processo às mãos de Frangoulis muito antes de completar os tais 34 dias. Deduziu uma acusação provisória. A foto dois prova claramente que a acusação provisória foi assinada no dia 6/4/2001. Isto significa que em 23 dias o processo já havia sido acusado e levava a assinatura de A. Gemo, o que significa Ana Maria Gemo.

Ana Maria Gemo, depois de ter exarado a acusação provisória, guardou o processo na sua gaveta por um mês. No dia 9 de Abril de 2001, o processo foi distribuído à 10ª Secção do Tribunal Judicial da Cidade de Maputo, na altura o juiz era Nhatumbo.

O juiz Nhatumbo, depois de ter lido o conteúdo do processo, comentou com alguns magistrados e advogados que a acusação era uma anedota e que no final da instrução contraditória iria soltar a mim, Nini Satar, o meu irmão Ayob e Vicente Ramaya, pois não havia nada que nos implicasse no assassinato de Carlos Cardoso.

O pronunciamento do juiz Nhatumbo, todavia, não agradou à nomenklatura política e aos juízes-conselheiros do Tribunal Supremo. Recordo-me que na altura havia até muita pressão da sociedade civil porque queria ver o processo encerrado.

Os magistrados do Supremo arranjaram formas de afastar o juiz Nhatumbo do processo e da 10ª Secção e colocaram lá o seu Marionete, chamado Augusto Raul Paulino, para que fizesse tudo ao bel-prazer daqueles.

O juiz Nhatumbo foi afastado depois de ter aberto a instrução contraditória. O normal, seria que fosse ele a concluir a instrução contraditória.

Chamo a acusação provisória de palhaçada porque tenho como me justificar. O Ministério Público diz o seguinte:

Parágrafo 11, conforme a foto três: “O arguido Aníbal, Manuel e o seu comparsa Carlitos, faziam-se transportar numa viatura de marca Citi-Golf, cor vermelha e com matrícula MLV 16-70, e Momade Satar numa viatura de cor branca cujos demais dados não foram identificados.”

Parágrafo 12: “Ai, Momade Satar abandonou a sua viatura e dirigiu-se ao Citi-Golf onde pela janela do lado esquerdo da frente, introduziu uma mochila contendo uma arma AKM.”

No parágrafo 15: “Próximo a um quiosque, na Avenida Mártires da Machava, a viatura conduzida por Momade Satar ultrapassou a do jornalista e bloqueou a passagem.”

Parágrafo 16: “Logo depois, o arguido Aníbal encostou a viatura Citi-Golf junto da viatura do jornalista (…) e começou a haver disparos.”

No parágrafo 35: “A arma utilizada pertencia a Aníbal.”

Meus caros, não é preciso ser inteligente para perceber que isto é uma verdadeira anedota, palhaçada. Não acredito que haja alguém em Moçambique capaz de acreditar nisto, tirando a Procuradora Ana Maria Gemo, o juiz Augusto Paulino, e outros alinhados ao sistema.

Quem na sua lucidez poderia acreditar que eu, Nini Satar, na altura um empresário próspero, proprietário de várias casas de câmbio, conhecido na praça pública, poderia levar uma arma AKM ao local do crime?

Alguém que goza da sua sanidade mental pode mesmo acreditar que eu, Nini Satar, poderia bloquear a viatura de Carlos Cardoso?

Há tanta burrice nesta acusação que a sua autora, já no parágrafo 35, contradiz-se. Diz que a arma do crime pertencia a Aníbal. Então, sendo assim, porquê estaria comigo? Quer dizer que o Aníbal deu-me a arma para eu ir lhe entregar justamente no dia do cometimento do crime? Ele não tinha a tarefa mais facilitada se tivesse ficado com a sua própria arma? Que burrice!!!!

Não sei se a dra. Ana Maria Gemo ao elaborar esta acusação, por cima do joelho, não pensava que algum dia iria ser lida e criticada. Passam hoje 15 anos e eu, Nini Satar, o sacrificado, estou aqui e vivinho da Silva a envergonhar todos os que estiveram envolvidos na cabala que resultou na minha condenação.

Recordo-me que quando recebi a tal acusação provisória, pus-me a rir. Até dirigi uma carta ao então Procurador-Geral da República, Joaquim Madeira, carta essa que brevemente vou postar aqui no Facebook.

Nessa carta, eu lhe dizia para deixar de confiar processos mediáticos a Procuradores recém-saídos das universidades, sob o risco de cometerem asneiras como as que foram cometidas por Ana Maria Gemo. Sinceramente não sei onde é que ela foi buscar essa palhaçada de que eu, Nini Satar, fui entregar a arma AKM no local do crime e ainda bloqueei a viatura de Carlos Cardoso.

A verdade é que depois de lograr a minha condenação, Ana Maria Gemo ficou pouco tempo na Procuradoria, pois pouco tempo depois foi nomeado para o cargo de Procurador-Geral da República o Augusto Raul Paulino. Aliás, isto foi mais um prémio por ter conseguido satisfazer a nomenklatura política. No entanto, Paulino olhou para Ana Maria Gemo e disse para consigo: “Esta é uma das nossas. Pertence ao nosso grupo.” Seguidamente, ofereceu a Ana Maria Gemo um cargo. Hoje ela é chefe do Gabinete Central do Combate à Corrupção.

Contudo, desde que foi nomeada para aquele cargo, nunca ouvi que prendeu alguém. Sinceramente, em 15 anos nunca ouvi que o Gabinete Central do Combate à Corrupção prendeu os verdadeiros corruptos e andam ai aos magotes.

Tentou fazer alguma coisa no caso Manhenge mais o desfecho foi infeliz porque houve uma mão política. Também há o caso Aeroportos em que o juiz Dimas Marrôa condenou os envolvidos a penas pesadas e pagou por isso: teve de ser pontapeado para Nampula.

Agora pergunto: a quem Ana Maria Gemo acusou desde que está no comando do GCCC? Ninguém, ninguém, ninguém. Está ai o caso concreto da Ematum que está a mexer com o País mas os implicados continuam impunes. Acredito que neste caso se estivesse envolvido alguém da família Satar, nem que seja um mero empregado da empresa Ematum, a estas alturas já estaria preso.

Enfim, o processo Carlos Cardoso foi uma fantochada com o intuito de safar Nyimpine Chissano e prejudicar pessoas inocentes. Gostava, contudo, que Ana Maria Gemo me explicasse onde é que ela foi buscar aquelas parvoíces que escreveu na acusação provisória.

N.B.
os anexos são provas documentais que havia interesses em arranjar maneiras maleficas pra manter me preso injustamente.”

Nini Satar

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